Hotéis, sustentabilidade e solidariedade

Tempos duros para o turismo neste 2020. Se as coisas já eram difíceis em termos de sustentabilidade neste mercado nos últimos anos, a pandemia trouxe um cenário jamais imaginado, não apenas em termos de perdas para o setor como também um retrocesso gigantesco nas tentativas de abandono do plástico pela hotelaria. 

O argumento de trabalhar sustentabilidade “quando a pandemia passar” é um dos grandes entraves para a recuperação turística. É preciso ser sustentável agora. E sustentabilidade na indústria turística significa também solidariedade.

Especialistas do setor têm apontado desde abril que a solidariedade será uma das moedas mais importantes para o setor a partir de agora. Afinal, privado das viagens por enquanto, o viajante está prestando mais atenção do que nunca nas empresas e hotéis que estão sendo realmente solidários neste momento – com clientes, colaboradores e sobretudo em relação aos destinos nos quais estão inseridos. Pesquisa da Trvl Lab do Panrotas (em parceria com a Mapie) mostra que mais de 51% dos entrevistados não pretendem voltar a consumir serviços de prestadores do turismo que não sejam solidários na pandemia.

Qualquer ação do setor gera impactos nas comunidades locais – sobretudo em termos de hotelaria. Cuidar não apenas do meio ambiente de seu entorno mas, principalmente, de suas comunidades locais é essencial. Em regiões remotas, como Amazônia, savanas africanas ou mesmo praias isoladas na costa brasileira, comunidades inteiras dependem economicamente quase que exclusivamente do turismo. “A participação solidária no momento será a melhor ação de relações publicas para hotéis de áreas atingidas”, defende Erik Sadao, especialista do setor com mais de 20 anos no turismo e proprietário da Sapiens Travel. 

Algumas empresas deram ótimo exemplo nestes tempos. Grandes redes hoteleiras, como Four Seasons, abriram parte de seus quartos ociosos no começo da pandemia para profissionais da saúde. Algumas companhias aéreas transportaram esses mesmos profissionais sem custos por algum tempo. 

No Brasil, propriedades como Cristalino Lodge e Anavilhanas Jungle Lodge (na Amazônia), Mata N’Ativa e Etnia Casa (em Trancoso, Bahia), Fasano e vários outros, se empenharam em campanhas para arrecadar doações, preparar alimentos e entregar cuidados e carinhos para suas comunidades. Os hotéis do grupo Belmond doaram roupas de cama e banho, uniformes, amenidades e mantimentos. 

Na África, grupos como Gamewatchers Safaris e Great Plains Conservation criaram brigadas para patrulhar suas reservas e áreas do entorno para conter o avanço dos casos de contrabando e caça de animais que vieram com a quarentena. Além disso, equiparam centros médicos comunitários, doaram equipamentos de proteção individual e mantimentos e não demitiram nenhum funcionário. Ambas empresas criaram também campanhas para que turistas de qualquer parte do mundo possam colaborar financeiramente com as comunidades maasai neste período, podendo até reverter as doações em hospedagem quando as fronteiras internacionais reabrirem com segurança (caso da campanha Adopt an Acre, da Porini Camps). “É o turismo que contribui para o desenvolvimento social e preservação cultural da comunidade receptora”, diz Simone Scorsato, da BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), associação que reúne diversas propriedades independentes do mercado de luxo no Brasil. 

Urge que cada vez mais propriedades entendam que sustentabilidade vai muito além de pedir para os hóspedes reutilizarem seus lençóis e toalhas. Que invistam em novas alternativas que substituam o plástico, que entendam que plástico envolvendo tudo durante a pandemia não é sinônimo de higiene e, principalmente, que se engajem de fato na proteção e sobrevivência de suas comunidades. E que nós, turistas, sejamos cada vez mais responsáveis e engajados também, respeitando comunidades e destinos e valorizando prestadores que sigam também essa filosofia. 

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